SNC vs IFRS: Desafios Práticos Para Equipas de Contabilidade em Portugal
Dois Mundos, Uma Equipa
Em Portugal, a maioria das empresas opera sob o SNC (Sistema de Normalização Contabilística). Mas quando integramos um grupo internacional — como foi o meu caso na Savills — a realidade muda: passamos a viver num mundo dual, onde o SNC coexiste com as IFRS (International Financial Reporting Standards).
Esta dualidade não é apenas teórica. Tem consequências práticas profundas na forma como organizamos equipas, definimos processos e reportamos informação.
As Principais Diferenças na Prática
1. Reconhecimento de Receita
A IFRS 15 exige uma abordagem baseada em contratos com cinco passos claros. O SNC, embora alinhado, permite maior flexibilidade na interpretação. Para quem lidera a contabilidade, isto significa ter processos distintos de reconhecimento dependendo do destinatário do reporte.
2. Locações (IFRS 16 vs SNC)
A IFRS 16 eliminou a distinção entre locações operacionais e financeiras para o locatário, obrigando ao reconhecimento de ativos de direito de uso. No SNC, esta obrigação não existe da mesma forma. Em empresas do setor imobiliário, onde as locações são centrais, o impacto é enorme — tanto no balanço como nos indicadores financeiros.
3. Imparidades e Justo Valor
As IFRS tendem a favorecer a mensuração ao justo valor, enquanto o SNC mantém uma abordagem mais conservadora ao custo histórico. Para equipas de contabilidade, isto traduz-se em avaliações periódicas mais complexas e na necessidade de envolver avaliadores externos.
O Desafio Organizacional
O verdadeiro desafio não é técnico — é organizacional. Gerir uma equipa que precisa de produzir dois conjuntos de demonstrações financeiras, com calendários diferentes e requisitos distintos, exige:
- Processos paralelos bem definidos — saber exatamente que ajustamentos são necessários entre SNC e IFRS
- Templates de reconciliação — documentar cada diferença de forma auditável
- Formação contínua — a equipa precisa de dominar ambos os referenciais
- Calendário integrado — alinhar os prazos de reporte local com os do grupo
Lições do Terreno
Na minha experiência, as empresas que melhor gerem esta dualidade são aquelas que investem em três áreas:
- Mapeamento completo das diferenças — um documento vivo que identifica cada divergência entre SNC e IFRS relevante para a empresa
- Automatização dos ajustamentos recorrentes — reduzir a margem de erro manual
- Comunicação clara com o grupo — explicar as especificidades do normativo português quando necessário
Conclusão
Trabalhar com SNC e IFRS em simultâneo é cada vez mais comum em Portugal, especialmente em subsidiárias de grupos internacionais. O Head of Accounting que domina esta dualidade torna-se um ativo estratégico — não apenas como executor, mas como ponte entre o reporte local e as expectativas do grupo.



